quarta-feira, 2 de março de 2011

O Cálice

Desolado e estoirado
Profunda violação penetrante
Encerra ainda represálias
Cujo rumo se escreve a sangue

O engano é forte
Tremendo aliás
Venenoso e duradouro
Prevalece contrafeito
Na alegria do soturno

Noite de luar
Deslizar, divagar a céu aberto
Ilimitado é a adrenalina
De quem salta o penhasco
A resgatar a bela caída

Julieta espera-me
A morte ide unir-me a ti
Para lá desta vida, serei teu
Devoto assim, Romeu...


quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Humanista, talvez nem tanto

Obcecado pelo suicídio
Mergulhado em puro delírio
Inesgotável saga
Em inesquecível vida
Apressada se encontra a alma
O tempo corre a seu favor

Não é o desespero
Muito menos o desinteresse
A curiosidade toma a forma
Da delicada lâmina
Que traça pelo corte a temporalidade
Curtas etapas subjectivas
Será ela também
Que ceifará a vida ao gato
Cuja sétima vida expira agora
De velhice se esqueceu
Como viver
Tem alternativa alguma
Senão ceder suas garras
A quem ainda as saiba usar

El-rei ide nu
Ruela abaixo pregando
De porta a porta prevê acontecimentos
"Esta nova maravilha" como a roga
Retorno à era anciã
De instinto, sobrevivência e selvajaria
É então que surge o Mago da corte
Possante em suas pesadas vestes
A resgatar nossa excelência da possessão demoníaca

Exorcismo à parte
Anjos lá alto em coro
Cantam deliciosos lamentos
Suas lágrimas puras
Tecem dor no peitos dos homens
Que em fim de contas feitas
Serão sempre homens
Homens e nada mais

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Mímica

O Mimo não é um fingidor, apenas tenta apaziguar à dor

Mascará-la de indisposição passageira

Disfarçar toda e qualquer tendência suicida e/ou homicida

Fugir da sua imensidão afugando-a noutra não menos real

Mas fantasiosa, imaginada e moldade por si

O actor apropriadamente distancia-se no terreno

Do seu antigo ser e cria outros tantos

O arrependimento não será eterno se não recordas quem fostes

Seja nesta vida, tenha sido noutra


Haverás ainda de me ver representar

A anterior teoria do fingimento

Com toda uma doentia devoção

Caí em desgraça comigo

Canibal hoje

Vampiro num ocasional amanhã

Ontem? Quem quer saber do ontem...

Mergulhei tão fundo que já sou estes meus reflexos

Espelho rachado, despedaçado em inúmeros bocados

Sou todos eles e no fim...não sou ninguém

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

A tua esperança jaz morta além

Esperança, bem crês na qual sentes ser
Na luz que doura a meu lado
Sois apenas uma gota estagnada na poça
Na poça que jaz além

Esperança, tentadora da fraca carne
Sorrateira te infiltras alma adentro
Corroendo barreiras, quebras o silêncio...
Não entendas o desistir enquanto derrota


Dádiva de existir porque alguém um dia
Se lembrou de nos parir
Brutalidade da primeira inspiração
Que nunca me abandonou
Em muito me traumatizou
E nunca, nunca me deixou..


quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Porque o Desprezo não tem preço

Questiono seriamente

Num claro pasmo céptico

Os derradeiros motivos que te

Permitem erguer uma e outra vez

Novo dia, nova tentativa


Toda essa vã euforia

Qual a Deusa degolada

A quem vós roubaste fascínio e beleza

Enojado comigo mesmo

Beijo-vos uma e outra vez

Amaldiçoando a Natureza, porque sim

Banhada em sangue divino sedes

A mais vil das criaturas, Medusa


O Problema ora lá está

Reside em mim, nunca em ti

"Não és tu, sou eu!"


Adoráveis instâncias de hipocrisia

Lamentáveis traços de satisfação

Amáveis memórias do Ontem

Ilumináveis dias do Amanhã

Mas vivo somente o Presente

E não há quem me ofereça uma solução


Não quero eufonismos

Não quero simplicidade

Não quero nada...


Estamos em saldos

Quer tudo fora daqui...

Que se leve tudo

Tudo sem excepção!


Porquê tanta admiração?

Aproveitem esta ocasião

Para se rodearem de bens sem utilização

Aqui tendes a minha real e concreta apreciação


O dinheiro, que farei com ele?

Jogarei fora com desprezo

Nas brasas do meu coração constrangido


Eremita no mais distante covil

Meditarei sobre nada

Sou egoísta a esse ponto

Dono nem de mim mesmo

E livre como só a mim me convém


Morte ao prisioneiro!

Morte ao prisioneiro!

Morte ao prisioneiro!

Que a Culpa, essa

É fatalmente do prisioneiro...

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Fulminado por um olhar...

Será que me atrevo

A derrubar todas as barreiras que construí

Por entre as trevas que me nutriram o espírito

Tornaram-me efectivamente aquilo que sou hoje e sempre

Contudo é hora de deixar o berço

Esvoaçar do ninho e guiar-me pelo Sol

Planar por entre planícies e montanhas

Seja por capicho ou por desejo necessito de reecontrar

Aquela Luz que me fascinou mal havia nascido

Cego, mudo e assustado vi o paraíso

Não durou um palpitar do meu coração

Mas senti ter descoberto logo ali o meu único fundamento

Sentido da minha existência por onde te escondes?

Talvez não te escondas...

Talvez estejas novamente a mostrar-me o caminho

Através das tuas misteriosas formas

Fascinante é realmente o cegar para com o resto

Mas ver com olhos de ver este admirável Mundo Novo

Tornado realidade ante meus velhos e cansados olhos

Que surgiram mais brilhantes após te contemplar novamente...

Narciso admirando a Natureza

Flor que brota entre as silvas

Joaninha que pousa entre mal-me-queres

Emanas uma aura de tranquilidade

Inquieta-me o sossego

Serás tu diferente?

Ou apenas o padrão da normalidade

Neste caos de insanidade

Juntemos as mãos e simplesmente

Seremos sem capicho de satisfazer

Os desejos alheios, seremos simplesmente

Algo que contrarie este Mundo