segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Mímica

O Mimo não é um fingidor, apenas tenta apaziguar à dor

Mascará-la de indisposição passageira

Disfarçar toda e qualquer tendência suicida e/ou homicida

Fugir da sua imensidão afugando-a noutra não menos real

Mas fantasiosa, imaginada e moldade por si

O actor apropriadamente distancia-se no terreno

Do seu antigo ser e cria outros tantos

O arrependimento não será eterno se não recordas quem fostes

Seja nesta vida, tenha sido noutra


Haverás ainda de me ver representar

A anterior teoria do fingimento

Com toda uma doentia devoção

Caí em desgraça comigo

Canibal hoje

Vampiro num ocasional amanhã

Ontem? Quem quer saber do ontem...

Mergulhei tão fundo que já sou estes meus reflexos

Espelho rachado, despedaçado em inúmeros bocados

Sou todos eles e no fim...não sou ninguém

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

A tua esperança jaz morta além

Esperança, bem crês na qual sentes ser
Na luz que doura a meu lado
Sois apenas uma gota estagnada na poça
Na poça que jaz além

Esperança, tentadora da fraca carne
Sorrateira te infiltras alma adentro
Corroendo barreiras, quebras o silêncio...
Não entendas o desistir enquanto derrota


Dádiva de existir porque alguém um dia
Se lembrou de nos parir
Brutalidade da primeira inspiração
Que nunca me abandonou
Em muito me traumatizou
E nunca, nunca me deixou..


quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Porque o Desprezo não tem preço

Questiono seriamente

Num claro pasmo céptico

Os derradeiros motivos que te

Permitem erguer uma e outra vez

Novo dia, nova tentativa


Toda essa vã euforia

Qual a Deusa degolada

A quem vós roubaste fascínio e beleza

Enojado comigo mesmo

Beijo-vos uma e outra vez

Amaldiçoando a Natureza, porque sim

Banhada em sangue divino sedes

A mais vil das criaturas, Medusa


O Problema ora lá está

Reside em mim, nunca em ti

"Não és tu, sou eu!"


Adoráveis instâncias de hipocrisia

Lamentáveis traços de satisfação

Amáveis memórias do Ontem

Ilumináveis dias do Amanhã

Mas vivo somente o Presente

E não há quem me ofereça uma solução


Não quero eufonismos

Não quero simplicidade

Não quero nada...


Estamos em saldos

Quer tudo fora daqui...

Que se leve tudo

Tudo sem excepção!


Porquê tanta admiração?

Aproveitem esta ocasião

Para se rodearem de bens sem utilização

Aqui tendes a minha real e concreta apreciação


O dinheiro, que farei com ele?

Jogarei fora com desprezo

Nas brasas do meu coração constrangido


Eremita no mais distante covil

Meditarei sobre nada

Sou egoísta a esse ponto

Dono nem de mim mesmo

E livre como só a mim me convém


Morte ao prisioneiro!

Morte ao prisioneiro!

Morte ao prisioneiro!

Que a Culpa, essa

É fatalmente do prisioneiro...

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Fulminado por um olhar...

Será que me atrevo

A derrubar todas as barreiras que construí

Por entre as trevas que me nutriram o espírito

Tornaram-me efectivamente aquilo que sou hoje e sempre

Contudo é hora de deixar o berço

Esvoaçar do ninho e guiar-me pelo Sol

Planar por entre planícies e montanhas

Seja por capicho ou por desejo necessito de reecontrar

Aquela Luz que me fascinou mal havia nascido

Cego, mudo e assustado vi o paraíso

Não durou um palpitar do meu coração

Mas senti ter descoberto logo ali o meu único fundamento

Sentido da minha existência por onde te escondes?

Talvez não te escondas...

Talvez estejas novamente a mostrar-me o caminho

Através das tuas misteriosas formas

Fascinante é realmente o cegar para com o resto

Mas ver com olhos de ver este admirável Mundo Novo

Tornado realidade ante meus velhos e cansados olhos

Que surgiram mais brilhantes após te contemplar novamente...

Narciso admirando a Natureza

Flor que brota entre as silvas

Joaninha que pousa entre mal-me-queres

Emanas uma aura de tranquilidade

Inquieta-me o sossego

Serás tu diferente?

Ou apenas o padrão da normalidade

Neste caos de insanidade

Juntemos as mãos e simplesmente

Seremos sem capicho de satisfazer

Os desejos alheios, seremos simplesmente

Algo que contrarie este Mundo

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Lágrimas de Saudade (Dedicado à Juju)

Flutuando entre mares
Neste vasto oceano
Vim aqui para me perder
Esquecer na essência do imenso sal
Salgar meu coração endurecido
Salvaguardar o que dele resta

Ó mar...ó mar sem Dono
Sê a minha Musa e ilumina
Este marinheiro a bom porto
Esquece os mitos e medos do Homem
Perdoa a sua franca inveja
Estava perdido em terra
Na foz do rio me havia de lançar
Abraçar meu doce amor
Em outra vida

Nisto Neptuno não consentiu
Também ele sofrera por Medusa

Afundado agora por entre ruínas
Sinto-me estranhamente leve
Livre de toda e qualquer dor

Que não se tema o berço
Que não se renegem as origens
O que do Mar nasceu ao Mar returnará!

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

O Outro

Por detrás deste espelho
Quem me observa?
"Quem és tu ó espectro?"
A figura ri e chora
Ri e chora...

Indignada talvez pelo esquecimento
Alegre talvez porque achou graça
Como se de uma piada se trata-se
Uma resposta nunca veio...

Voltei costas
Dei por mim cercado por espelhos
O Outro rodeava-me
Com uma expressão vaga
No entanto nada temi

Intrigado pelo evento sentei-me
Curiosamente o Outro fez o mesmo
Irritado e sem paciência
Esmurrei os vidros

Senti-me despedaçar
O meu coração sangrava
Que se passava?
Foi então que o rosto da besta surgiu
Fez-me luz mas era tarde
Nos braços da Morte soube quem era